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Revista Veja e a sua publicidade negativa Sobre a Biblia

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Mais de Deus em janeiro - 21 - 2010

Revista Veja e a sua publicidade negativa da Bíblia: A moderníssima e mais eficaz forma de desconstrucionismo

Quantcastpor César Moisés Carvalho

Olhando superficialmente, parece ter sido simplesmente falta de assunto ou uma forma de desviar a “conversa” do foco de discussão (leis desumanas e imorais, legislativo em frangalhos etc.), mas a revista Veja “resolveu” na edição desta semana que antecede a celebração do Natal, abordar a Bíblia Sagrada. É o tipo de reportagem que faz mais mal que bem. Lança mais obscuridade que esclarece. Inibe mais que instiga. Por isso, espero que nenhum cristão se apresse em alegrar-se dizendo que até mesmo os incrédulos estão se “dobrando” e reconhecendo o poder da Palavra. Na realidade, o que parece ser inicialmente mais uma daquelas reportagens em que o jornalista entende do assunto tanto quanto de física quântica (isto é, “nada”), é meramente uma forma disfarçada de censurar a Bíblia. Assim, não se pode ser simplista afirmando que o que faltou foi uma consulta a alguém que entende de Bíblia, a um teólogo ou biblista, porque, decididamente, este não é o ponto, pois se a equipe encontra algo muito mais difícil que isto, conversar com alguém entendido do assunto não seria problema. É tanto que a reportagem reconhece a verdade de que é inegável a importância da Bíblia até mesmo do ponto de vista sócio-cultural para o que conhecemos como mundo ocidental:

O judaísmo e seu descendente (e dissidente), o cristianismo, são fundamentalmente religiões narrativas – muito mais do que qualquer outra das grandes religiões, monoteístas ou não. Vem daí muito da força e da influência sem paralelo da Bíblia sobre o pensamento de uma parcela grande da humanidade, aquela abrangida no que se costuma chamar de civilização judaico-cristã: sem que se faça aqui nenhum julgamento, de natureza alguma, sobre o papel de cada uma das religiões na história dos homens, é um fato da ciência sociopolítica que o judaísmo e o cristianismo tiveram um impacto ilimitado nos rumos dessa história. Porque contam, entre todas as fés, com o mais extenso, detalhado, profundo e variegado plano jamais disposto para os seguidores de uma divindade, do surgimento do mundo ao seu fim, ou sua transmutação total no reino de Deus: a Bíblia, um conjunto vasto não apenas de ensinamentos, ditames e reflexões, mas de histórias arraigadas em nossa cultura. Para ateus e agnósticos, essa é uma razão para ler a Bíblia: para descobrir por que mesmo quem não crê compartilha a mesma herança que os que creem. É como se a Bíblia e a tradição que ela carrega fossem, enfim, o DNA da civilização ocidental: crer ou não crer corresponde àquela porcentagem infinitesimal de diferenças genéticas que nos separam – todo o resto, ou 99% dos genes, são comuns a todos nós.[1]

Essa é mais uma das razões porque é preciso saber fazer uma leitura crítica dos textos e, principalmente, da realidade que nos cerca. É preciso saber apreender o sentido subjacente ao texto e assim discernir as motivações e os reais objetivos de quem o escreveu. Já nas primeiras páginas da matéria é possível verificar o seu real intento e constatar que o desconhecimento acerca do assunto é algo que passa longe da jornalista Isabela Boscov:

Como, afinal, esse livro escrito no decorrer de mais de 1.000 anos deve ser lido? Como uma transcrição direta da palavra de Deus, segundo creem tantos? Como a palavra divina inserida em um contexto terreno, o da relação com seu Deus de uma cultura que ia atravessando mudanças geográficas, políticas e sociais? Como um livro histórico, tão somente? Ou, conforme querem outros, como uma ferramenta que grupos diversos podem manejar na busca por poder e supremacia? Seria possível imaginar que, passadas tantas dezenas de séculos do advento desse livro, tais questões não mais teriam lugar no mundo moderno. Sucede exatamente o contrário. A religião nunca deixou de ser força motriz dos rumos da história do homem, tampouco fonte de tensão. E, na última década em especial, ela ressurgiu com efeito redobrado no centro do cenário político global. De onde ler a Bíblia – e entender como ler a Bíblia – não é nem de longe um conhecimento periférico na vida do século XXI.[2]

Apesar de a matéria insistir em muitos pontos sobre a dificuldade de se interpretar a Bíblia, dizendo, por exemplo, que Ela “é um mosaico intricado no que toca às possibilidades de interpretação”[3]; as questões não são simplesmente hermenêuticas e dá até para antecipar o que deve vir nas próximas edições da revista.[4] Isso é visto claramente quando se percebe que a matéria é contraditória, pois reconhece que existem “estudiosos [que] se dedicam a mostrar como a forma, o estilo e a escolha de palavras são decisivos no que a Bíblia diz. E mais essencial ainda é o contexto em que ela diz o que diz”[5], mas instantes depois (após dizer que a “Bíblia é um mosaico intricado”), coloca a seguinte questão (extremamente pueril, diga-se de passagem) para reforçar o seu ataque:

Até porque, surpresa, ela não trata em miúdos de alguns dos temas em que é invocada com grande insistência. Hoje, é comum que as Bíblias evangélicas mais completas contenham um índice temático denominado “concordância.” Procura-se uma palavra – digamos, “graça”, ou “pobreza” – e o índice relaciona todas as ocasiões em que ela aparece em todo o imenso volume de texto. Isso porque, como já se disse, seguir a Bíblia à risca é fundamental para muitos dos ramos evangélicos, e a concordância ajuda-os a informar-se sobre o que a Bíblia tem a dizer a respeito de cada aspecto de sua vida e fé (os católicos, por contraste, apoiam-se mais na doutrina moral delineada pela Igreja). Tente-se procurar na concordância, entretanto, o termo “aborto”: ele não constará. A Bíblia não trata de forma explícita ou direta da interrupção deliberada da gestação em nenhum trecho de seus milhares de páginas. Há possíveis alusões, como no capítulo 30 do Deuteronômio, muito usado pelos grupos antiaborto: “Hoje tomo o céu e a terra como testemunhas contra vós; eu te propus a vida ou a morte, a bênção ou a maldição. Escolhe, pois, a vida, para que vivas tu e a tua descendência, amando ao Senhor teu Deus, obedecendo à sua voz e apegando-te a ele”. Mas alguns pesquisadores, inclusive evangélicos, contradizem essa leitura. Segundo eles, o trecho é na verdade uma exortação aos israelitas em fuga do Egito para que não se desviem do caminho do Senhor. Como decidir, então, quem está certo? [6]

A pergunta é retórica, pois a jornalista afirma imediatamente no início do parágrafo seguinte: “A única resposta segura é que não há como decidir”. Por isso, insisto, o problema levantado pela matéria não é de natureza interpretativa, antes, a discussão toda gira em torno de uma questão central: “é possível viver, nos dias de hoje, como se viveu 3. 200 anos atrás, o período em que se estima que a Bíblia começou a ser escrita?”[7] É evidente que a resposta a esta indagação é sim e não, ao mesmo tempo. Qualquer cristão responsável sabe disso. No entanto, sem fazer qualquer outra ponderação, a resposta que segue-se imediatamente após a pergunta é a seguinte:

Vários ramos religiosos, sobretudo entre os judeus e os evangélicos, acham que sim: pode-se e deve-se viver exatamente como a Bíblia prescreve. No entender dessas correntes, o texto sagrado foi recebido diretamente de Deus e tem, portanto, de ser aceito de forma literal, sem interpretações nem relativizações.[8]

No afã de apoiar a discussão se é ou não exequível viver de acordo com o texto sagrado, Veja cita um caso esdrúxulo em que um agnóstico nova-iorquino de origem judia, decidiu viver durante um ano observando algumas “regras bíblicas”. Trata-se do escritor e jornalista A.J. Jacobs que, em 2005, diz ter passado um período vivendo “tal e qual a Bíblia manda – tanto o Velho como o Novo Testamentos”. Segundo a matéria, este mesmo personagem “que já fizera fama como o autor de The Know-It-All, sobre os doze meses que passara lendo a Encyclopaedia Britannica de ponta a ponta, colecionou experiências estranhas em quantidade suficiente para escrever outro livro, The Year of Living Biblically (O Ano de Viver Biblicamente), lançado em 2007”. Agora veja só as “experiências estranhas” elencadas pela reportagem: “suou frio para apedrejar um adúltero, como ordena o Velho Testamento, cultivou uma barba que teimava em guardar vestígios de suas últimas refeições e, uma vez que deixou de contar até mesmo aquelas mentirinhas sociais que tanto ajudam a civilização, passou por malcriado em mais de uma ocasião”.[9]

Dizer que a experiência beira o ridículo seria o mínimo, no entanto, não muito depois, antes de afirmar que “Deslindar o que a Bíblia diz, afinal, é traduzir Deus. Mas nunca se soube de dois tradutores que coincidissem em suas respectivas versões de um texto”; a jornalista começa a demonstrar a imprecisão e a própria irracionalidade de se viver à luz da Bíblia Sagrada em uma época como a que estamos atravessando:

À medida que o Ocidente se torna cada vez mais secular, mais também vem à tona esse caráter factual na leitura que se faz da Bíblia. Em que medida se aceita ou não seu caráter de crônica, porém, é talvez o impasse mais candente que a Bíblia provoca. Duas questões importantíssimas se imiscuem nessa tentativa de enxergar o simples em algo que é tão complexo. A primeira, que acompanha qualquer texto sagrado desde sua gestação, é que tudo nele que pode ser ligado a um dado da realidade tem também (ou principalmente, para muitos) um componente divino. Um judeu dos dias de hoje que segue sua fé de forma mais livre pode decidir que, na era das normas sanitárias e da refrigeração, comer camarões em nada fere os princípios espirituais e morais que lhe foram legados. Um casal cristão moderno pode raciocinar que, se Deus é a bondade suprema, como os Evangelhos ensinam, Ele jamais condenaria seu bebê à danação caso ele morresse sem ser batizado. Outros judeus e outros cristãos de persuasões mais rigorosas argumentariam que não é possível escolher, da religião, o que convém e o que não convém, já que a palavra de Deus é una e não deve ser fragmentada; para estes, as regras alimentares ou os sacramentos existem dentro de um contínuo que é indivisível e deve ser respeitado na íntegra, por mais duras que pareçam as regras. Assim, transgredir à mesa ou postergar um pouco determinadas cerimônias não seriam meros pecadilhos. Constituiriam ofensas a Deus, e toda ofensa a Deus, ainda que pareça irracional ao olhar moderno, seria igualmente irredimível.[10]

A desconstrução da Bíblia é evidente nesta edição de Veja, mas a forma de ataque não é filosófica como a engendrada por Focault, nem belicosa como a de Dawkins que, aliás, acaba de lançar um novo livro (O maior espetáculo da terra), onde até cita a passagem de Ezequiel 37.1-14 (na realidade quando a Palavra de Deus parece respaldar as ideias céticas, eles não hesitam em citá-la). A forma arquitetada pela matéria permite a utilização da Bíblia como, no máximo, um livro de autoajuda. Algo que na prática, infelizmente, já está acontecendo em muitos círculos evangélicos que, atendendo aos apelos pragmáticos desses tempos pós-modernos, tratam a Bíblia desta forma.

Para provar a minha tese de que o propósito da matéria assinada pela jornalista Isabela Boscov não é promover a Bíblia, muito menos reconhecer sua benéfica influência na sociedade ou coisa que o valha, mas demonstrar o quanto as ideias escriturísticas são retrógadas, perigosas e reacionárias para os diabólicos e desumanos projetos da pós-modernidade, basta verificar a forma como ela finaliza seu texto:

Para quem acha que a Bíblia é uma coleção de histórias da carochinha escritas por pessoas talvez meio instáveis, com uma queda para o fantástico e a violência (e o Velho Testamento é repleto de casos de arrepiar os cabelos), um alerta: a disputa pela posse dessa verdade completa e absoluta continua a fazer estremecer a história. No Brasil, o crescimento vertiginoso do evangelismo muda não só costumes entre as parcelas da população que aderem a ele como pode, no limite, vir a alterar um dos epítetos pelos quais o país é conhecido – o de a maior nação católica do mundo. Nos Estados Unidos, onde a liberalização da moral e da legislação, a partir dos anos 1960, criou tensões imensas com a populosa faixa dos americanos que acham que toda lei e todo código devem emanar da Bíblia, surgiram paradoxos incompreensíveis. Por exemplo, os grupos contra o aborto que, na defesa intransigente da vida, matam médicos e enfermeiras de clínicas que realizam a prática. Até o mais explosivo ingrediente da política global, o conflito no Oriente Médio entre árabes e judeus e suas infinitas ramificações, tem um componente bíblico – o estabelecimento do estado de Israel, em 1948, na região que, no Gênese, consta como a terra prometida dos judeus. Não é preciso crer, enfim, para entender que a Bíblia não é apenas “a maior história de todos os tempos”, como se costuma dizer. Mais de 3 000 anos depois de ter começado a ser escrita, ela é ainda a maior história deste tempo.[11]

Ainda restou-me uma dúvida: Se alguém souber desses grupos cristãos que “na defesa intransigente da vida, matam médicos e enfermeiras de clínicas que realizam a prática [do aborto]”, queira, por gentileza, informar-me, pois tenho curiosidade de conhecê-los. No mais, encerro aqui meu enorme post (o qual sinceramente acredito ser o último que escrevo este ano), deixando apenas mais alguns lembretes: estamos às vésperas de ano eleitoral, portanto, é preciso aprovar “a toque de caixa” leis desumanas que favorecem oligarquias e, neste caso, a Bíblia é um empecilho para quem atenta contra a vida ou, a despeito de ter nascido homem ou mulher, insiste em querer ser “outra coisa”. Assim, por antecipação, é melhor desconstruir o Livro que dá base para qualquer tipo de organização social digna, pois a evolução pós-moderna sugere que liberdade é viver como se a racionalidade não existisse.

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